Sobre temperaturas, significados e pessoas

 

Faz tanto tempo que não me dedico a escrever que me sinto quase como um forasteiro. Talvez seja um paralelo com a vida, na qual não tenho sentido que me encaixo facilmente em qualquer lugar. Como se nenhum lugar parecesse o certo, como se nenhum lugar estabelecesse um conforto, uma noção de permanência. Uma vontade e sensação que vem do coração, apesar dos clichês, que fazer tudo parecer que está bem.

E nesses momentos à deriva andei me redescobrindo, sentindo umas coisas diferentes, coisas que como a música (justificando assim sua escolha pra esse texto), me mantiveram aquecido, e não deixaram que meu lado racional tomasse a conta completamente. Redescobri o prazer de estar sozinho, não apenas quanto a companhia, mas sim de me livrar dessa sensação de dependência que por consequência leva a sensação de abandono (ainda não totalmente resolvida, vale dizer).  Mas também passei a apreciar muito mais uma companhia, um amigo ao lado para dividir momentos, e contar coisas banais do nosso dia, sobre como o professor foi um escroto ou como você ficou mexido com um paciente que foi um fofo.

E nessa de valorizações e desvalorizações sempre vêm, os relacionamentos. Apesar de estar fugindo dos mesmos, tenho cada vez mais dado importância a eles no sentido de respeitar a entidade de um, da doação, da segurança de se estar com o outro, da importância de estar bem consigo a fim de dividir uma união, ou seja algo que ambos devem remar para que não afunde. Conhecidamente sendo um criador de furos em barcos à deriva, cada vez mantenho mais meus pés em terra firme e bem seca. No entanto, admito que aquela sensação, de maresia, de balanço, faz falta para torna essa vida, por assim dizer, mais quentinha. Mas sigo incapaz de me atrever a navegar.

Tenho reservados meus momentos de choro pra horas em que vejo coisas bonitas, cenas que me agradam e pro mais próximo de um sentimento de felicidade que elas possam vir a me passar. Já me foi questionado, sobre um momento feliz meu. E na hora me vem em mente a aprovação no vestibular, porque para muitos esse seria um momento. Mas pra mim é muito diferente, um sentimento de realização pessoal porém não de felicidade. Esses são muito mais sutis, mais discretos, embutidos em uma troca de mensagens, em um dia que você sai com amigos para beber uma cerveja, para comer salgadinhos, para tomar sorvete e reclamar da vida. Esses momentos são puramente “felizes” ainda que envolvam outros sentimentos, porque ali você partilha essa carga, e juntos podem transformar em algo bom e rir, apesar da preocupação.

Me estendi até mais do que gostaria e fui muito mais confuso do que deveria, mas esse é mais um desabafo mesmo. Havia tempo que não despejava um turbilhão de pensamentos aqui. Espero que para quem o esteja lendo seja ao menos parcialmente tão aprazível e proveitoso quanto o foi pra mim. Ou como eu mesmo disse, que traga um sentimento de comunidade, de compartilhamento, de presença que possa te aquecer, assim como a mim aquece, não só os dedos que o digitam mas o coração, ao despejar as muralhas de gelo pra fora.

 

What’s your middle name? Do you hate your job? Do you fall in love too easily? What’s your favorite word?

She keeps me warm – Mary Lambert

 

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Sobre adultos, anos e silêncio

Esse texto, diferentes dos outros, não vem com uma música, não vem com um verso cantado ou mesmo com uma voz que traduza sentimentos em notas. Essa talvez seja uma forma de valorizar o silêncio e nossa voz interior. Essa que fala quando tudo se cala, que grita quando tudo é paz, que chora quando tudo sorri e vice-versa.

2017 foi um ano pesado, melhor que 2016 sem dúvidas foi um ano que certamente posso definir como um ano de ruptura, um ano de ecdise, um ano de amadurecimentos. Acredito que, ainda que jovem, dependente e muito ignorante perante quase tudo nessa vida, comecei de fato a vida adulta. As dores, as quebras de expectativas, as necessidades, um certo pessimismo de cunho realista e a quebra de idealizações.

Cheguei aqui querendo ser um grande médico, cirurgião, que pudesse salvar as pessoas com um bisturi e talvez que alimentasse um certo complexo de Deus que meu eu, outrora arrogante, nutria secretamente. Hoje em dia, já não mais almejo tais vôos. Não quer dizer que não queira mais voar ou mesmo que aquelas que almejam o que disse acima, sigam os mesmos motivos que eu segui. Só vejo agora que pretendo voar da minha maneira, de um jeito que se adapte a mim, e não da visão que os outros possam vir a ter de mim. Que a admiração não necessariamente venha de grandes feitos, mas sim de um serviço bem feito, correto, humano.

Os valores mudaram, as relações mudaram. O menino que pisou nesta cidade aos 19 anos acreditava num amor eterno, na necessidade de um relacionamento para felicidade ainda que dissesse aos outros que não buscassem isso para ser feliz. Não sabia quem eu era, não sabia muito menos quem queria ser nem o que me tornaria. Aprendi que pessoas não precisam ficar para sempre em nossas vidas para serem especiais, e que mesmo que elas fiquem não precisa ser do mesmo jeito que entraram. Que amor, não se vê como necessariamente a manutenção eterna de uma relação, mas às vezes um adeus pelo benefício de ambos. Aprendi que é preciso ouvir, mas não só esse “ouvir” que é bonito dizer e que encaixa num belo verso ou numa frase de autoajuda. Mas sim o se colocar ali para o outro, estar ali não por tabela ou não porque é o melhor a se fazer, mas por querer.

Foi um ano difícil, indubitavelmente, mas talvez porque eu tenha sido uma pessoa difícil de sustentar por tanto tempo. Aprendi a pedir ajuda, aprendi a cair e me levantar tantas vezes, que os joelhos ralados e broncas se tornaram mera lembrança perante as faces salgadas e pulmões afoitos por ar. Aprendi a ser mais aberto, e que por isso, não necessariamente levaria mais golpes mas que também viriam mais abraços, viriam mais vozes que o chamam de “amigo” , viria mais amor gratuito, desse assim, de graça que surge as vezes numa oportunidade única, numa mão estendida que pode ser crucial pro outro e tão bobo para você. E aprendi principalmente a me respeitar, me dar meu espaço, me tratar da maneira como deve ser, como eu aguento. Ligar cada vez menos pra opinião alheia quanto a viver a minha verdade, no entanto, respeitar e entender, uma vez que as verdades nunca são iguais entre as pessoas. Aprendi por fim, que nunca faltam coisas pra aprender, que adultos, passam essa ideia, de segurança, de bem-estar, de plenitude, mas que a plenitude de verdade está em entender tudo isso. Aprendi, sigo aprendendo e que nunca deixe de aprender, aprender de verdade, a viver.

Sobre retornos, oportunidades e recusas

E eis que você voltou. Não da forma como imaginei, nem no momento que imaginei. Mas você voltou. E eu não cedi. Dois anos depois e parece que aprendi a me virar sozinho, não é mesmo? Linhas e linhas de conversas para explicar tanta coisa, esclarecer erros, sentimentos de culpa, confusões. E no final, você ainda tem interesse. Mas eu não.

Mexeu comigo, falar com você. E relembrar tudo me fez perceber que toda aquela mágoa, aquele sentimento pesado, se foi. Eramos apenas duas pessoas, mais jovens do que ainda somos, perdidos após términos recentes, castigados cada um à sua própria maneira. E eu tentei te substituir desde então, mas claro que não consegui. Porque é impossível, cada pessoa que entra em nossa história deixa marcas eternas.  O que não quer dizer que a porta esteja aberta pra você entrar de novo.

Te procurei em outros rostos, outras bocas, outras camas. Te procurei e acabei por me perder. E por onde você andou durante esse tempo? Não faço ideia. Até que voltei a me encontrar e percebi que precisava de fato te achar. Conversar. Entender. Pôr um fim nos sentimentos ruins, na mágoa acumulada, nas noites sem dormir pensando em como teria sido. E apesar de não ter sido exatamente fácil, me sinto mais leve, livre desse luto pelo que poderíamos ter sido.

Eu não te contei, mas eu te amei, talvez última vez que eu tenha conseguido extrair isso de mim até agora. Você me tinha. Mas não era a hora pra você. E hoje eu entendo isso, não havia nada que eu podia fazer. O cheiro do cabelo que eu amava acariciar não era pra ficar em meus dedos. Os olhos castanhos, que eu nunca conseguia decifrar por completo, foram a minha ruína, mas não eram meus. A tempestade passou por mim, mas me deixou só.

Não, eu não tenho um outro alguém. E não, não estou procurando. Mas para cuidar de mim, primeiro precisei fechar essa porta entre nós. Se um dia ela vai se abrir de novo, por motivos maiores a mim ou a você, não temos como saber. Mas no que me concerne, essa luta não é mais minha. É hora de caminhar em meio a uma leve garoa e não de perseguir tempestades. De buscar abrigo e não de ser o farol que resiste a tormenta.

No epitáfio de nós dois creio que posso escrever: ” Amou. Não foi recíproco. Chorou. Sofreu. Procurou motivos. Entendeu e seguiu em frente. Acabou”.

Como você me desejou uma vez e eu ironizei, boa sorte. Porém dessa vez, digo de verdade. Boa sorte, pra mim, pra você , pra nós. Adeus.

“Would’ve gave it all for you, cared for you, so tell me where I went wrong”

Eyes Closed – Halsey

Sobre ajuda, solidão e questões

De volta ao papel, reencontro esse velho amigo, juntamente com uma velha amiga, que dessa vez me derrubou. Engatinhando busquei ajuda para me livrar dessa rasteira. Escoriado, ainda não me reergui, o processo é lento, mas ao menos tive forças para me escorar aqui. No meu refúgio literário. No meu terapeuta de acordes, celulose e grafite.

Minha cabeça dói. Mas não creio que seja efeito da medicação e sim da reconstrução de sentimentos que quebram a indiferença, a apatia que escorria pelos dias, me afogando em um oceano escuro e frio. Os pensamentos fluem como o ar, que entra sofregamente nos pulmões encharcados pela água. Se debatem, se chocam, se destroem e renascem, como pequenas fênix forjadas de sangue e metal. A água, com gosto de remorso, sal e ferro queima minhas narinas e faz latejar ainda mais minha cabeça pesada, baixa. No entanto, eu que decidi subir. Tentar subir. Vir à superfície, ter meus olhos queimados pela luz, sentir o ar queimar onde nada mais se sentia.

Sobrevivente de meus próprios mares, da minha própria ressaca, fito a água que reflete meu rosto. Vazio, tenso, neutro. Não me recordava de quando fui diferente, de quando tudo começou a afundar e eu apenas assisti. Assisti a criação de minha própria Atlântida, atribuindo rostos as falhas estruturais, me sentindo acorrentado ao naufrágio. Ainda estou, mas tento permanecer emerso. E principalmente sem trazer ninguém ao fundo comigo, na esperança de um resgate que só pode vir de dentro.

Queria que minha memória fosse pior. Que não pensasse tanto. Queria ser mais simples. Queria esquecer alguns momentos, muitos deles bons (por incrível que pareça). Queria aprender novamente a amar de maneira proporcional. Queria entender. Entender a mim mesmo. Entender sobre nós. Entender sobre você. Sobre a força que dei às mãos erradas. Sobre como me atirei as suas pedras sem perceber o dano que seria letal. Sobre como esse “você” podem ser tantas pessoas da minha vida e ao mesmo tempo nenhuma. Sobre a idealização. Sobre como cada linha que escrevo tem um porque, um traço de cada história que se cruza à minha.

Tantas perguntas … Tantos silêncios … Por isso talvez eu goste tanto das noites. Especialmente as frias e sem lua. E das luzes. Especialmente as luzes, que banham o asfalto molhado e mostram as janelas despertas, solitárias. São como pequenos lembretes de que sempre há algo ali. Alguém pensando, alguém sorrindo, alguém sofrendo, alguém amando. Alguém que poderia ser eu. Que poderia ser você. Mas são apenas luzes, histórias, quebrando o breu, o silêncio, o peso de outro dia ido.

Talvez, penso eu, seja, assim como diz a música, jovem demais para estar assim, tão machucado. Tendo vivido tão pouco e ainda sim sentido de maneira tão intensa. Tenho tantas perguntas sem resposta. Tantos ecos sem retorno. Tantas indiferenças. Tantos sorrisos disfarçando uma angústia, escondida no bolso da calça. Tantas tentativas. Tanta insegurança. Tantos tantos. Tantos nadas.

Tanto … Tão pouco.

Why did you leave me here to burn? I’m way too young to be this hurt. I feel doomed in hotel rooms, staring straight up at the wall

I Have Questions – Camila Cabello

Sobre fragmentos, gritos e facetas

– Oi

– Oi

– Quanto tempo não te vejo. Que não conversamos.

– Para de ser dramático, nos vimos hoje de manhã.

– Eu sei, mas trocamos somente olhares, foi tudo tão frio, tão rápido, num reflexo.

– Então me diga, o que quer conversar comigo?

– Ah não sei, queria saber como você tá, se está melhor, se ainda dói …

– Melhor sim, bem talvez e sim, ainda dói, dói demais. Mas por que você se importa?

– Ora, fui eu que te causei tudo isso. Direta ou indiretamente.

– Para de ser hipócrita, você não liga, nem nunca ligou, olha pro seu rosto frio, inexpressivo.

– Você sabe que ele nem sempre foi assim.  E não quer dizer que eu não me importe, não fala assim. Dói em mim também. A sua dor.

– E o amor? Fica aonde? Você o destruiu tão bem. Esfarelou sobre o que restava de você.

– Não nego, mas a culpa não foi minh-

– NUNCA É. Você sempre foge de tudo. Da culpa. De quem se aproxima, de quem pode te amar. Você foge de mim.

– Para. Por favor. Você sabe que eu nunca quis fazer isso. Mas a vida acontece. Ela leva a gente pra lugares. Afasta.

– Sempre as mesmas palavras, a mesma desculpa, a mesma cara nula, de quem ouve a verdade e a julga torpe.

– Eu tô tentando.

– Tentar … De novo … E de novo … E de novo … Já ouvi essa história várias vezes, e quem sabe quantos e quantas também não?

– CALA A BOCA. Você tanto me cobra, mas sempre ta aí. Me cutucando, chutando o cachorro morto, esperando que eu me reerga sem nem me deixar respirar. Qual é o seu problema?

– VOCÊ. Você é o meu problema, você e sua bagagem. Você e essa sua mania de lembrar de tudo tão bem. De sentir tudo tão vivamente e de demonstrar tão pouco. De ser tão latente e ao mesmo tempo tão poente. Você é a porra do meu problema.

– Parece que o rancor não é só meu né. Assim como as armas não são apenas suas. As pedras nunca se abaixam pra falar. As muralhas nunca descem. As facetas são sempre imponentes. Duras. Rijas.

– E o que você tá esperando?

– Pra quê?

– Pra sumir ou então dar um jeito nisso tudo.

– Se fosse fácil já teria feito, não acha?

– Você? Acomodado com sua própria bolha, sua zona de conforto com arames farpados, suas memórias doloridas. Acho que você está querendo se meter nesse buraco que vive e aí ficar.

– Por que eu ainda tento? Conversar com você hein …

– Acho que não temos opção.

– Temos, mas algum masoquismo nos faz continuar. Talvez por eu não querer desistir de você, nem você de mim.

– E você vai morar aonde? Quando resolver sair?

– Eu não sei. Talvez eu suma por aí, nunca mais volte, talvez um dia te encontre virando a esquina. E você?

– Não sei nem pra onde vou quando acordar, que dirá quando você mudar de vez. Vou ficar meio sem rumo.

– Pra variar

– Para de ser assim comigo, irônico, ácido, destrutivo.

– Vai se distrair por aí. É o que você faz melhor, sem nunca sanar nosso problema. Vai pensar em você e tentar achar a resposta em outros.

– …

– Ficou sem palavras? Talvez porque a tal da verdade que você tanto preza dói né. E você continua aqui, levando soco atrás de soco. Tapa atrás de tapa. Pra que? Você gosta? Ou é por que você é fraco?

– NÃO FALA ISSO PRA MIM.

– Mas é a verdade. Você não gosta dela? Talvez você seja forte sim, mas somente fora daqui. Olhando nos meus olhos isso mingua. Isso se esvai. Você vira uma criança ainda aprendendo a falar. Então vou dizer só mais uma vez, e preste atenção. Pare de ser frac-

Um soco.

Vidro estilhaçando.

Contemplo o espelho do banheiro quebrado. Me apoio na beira da pia. Sangue escorre das minhas mãos. Lavo rapidamente na pia. Avalio os cortes. Rasos. Faço um curativo. Olho rapidamente pra onde antes estava o rosto. Apenas fragmentos ali permanecem. Reflexo desfigurado. Apago a luz.

When my feet get bored of travelling and it looks like it’s all unraveling. When this heart’s too old for dreaming, that’s when I hear the angels sing your lullaby

Lullaby Love – Roo Panes

Sobre a vida, aprendizados e quatros

Hoje parei pra pensar e me dei conta de algumas coisas, que até estavam organizadas em minha mente, mas só se desenrolariam e ganhariam corpo quando colocadas nessas letras já companheiras de minha caminhada. Sempre tenho uma atitude bem realista, pessimista boa parte das vezes e me deparo com textos sobre obstáculos e quedas. Mas talvez esse seja diferente, pois, irei falar das dores sim, mas porque não do que veio delas?

Há quatro anos atrás quem era eu? Vivia numa bolha, numa redoma, no meu próprio mundo intrincado numa rotina confortável. Reprimido por mim mesmo. Limitado a minhas ambições universitárias e conquistas acadêmicas. E hoje quem sou eu? Ainda não sei para dizer a verdade, e talvez jamais saberei com toda certeza, mas sei que hoje sou mais eu do que jamais fui em toda a minha vida.

Nesses quatro anos, vivi o que não vivi em todos os outros. Passei a morar sozinho, me ergui com minhas próprias pernas (ainda que não com meu próprio trabalho) e aprendi a ser mais independente. Aprendi tanta coisa. A me localizar (habilidade ainda carente de desenvolvimento), aprendi a cozinhar, a cuidar da minha casa, a cuidar da minha saúde e da saúde dos outros. Aprendi que não devo lavar as roupas brancas junto com as coloridas (ainda que eu as misture mesmo assim), aprendi como passar a roupa corretamente (ainda que eu seja resistente a passá-las) e aprendi a sempre pôr o lixo pra fora.

Mas tirando isso, das rotinas que permeiam a vida, do tiquetaquear do relógio das horas humanas, quem sou eu? Ou melhor quem me tornei?

Aprendi que um amigo (ou no meu caso, sendo agraciado, amigos) pode se tornar sua família e ser muito mais importante e presente do que outros membros dela. Aprendi que eu posso chorar quando o outro também chora, ou chorar só porque tive vontade, porque estava precisando e isso não me torna mais fraco ou menos homem. Aprendi que não preciso me rotular a nada e nem devo explicações da minha vida pessoal a ninguém, desde que eu esteja bem com isso. Aprendi que o riso é contagiante e quando compartilhado ele perdura, ele sustenta, ele te segura de cair num abismo profundo. Aprendi ainda que sou forte, ou melhor que me tornei forte e cada dia me fortaleço ainda mais. Aprendi que relacionamentos não duram pra sempre, mas a marca que eles podem deixar sim. Aprendi que eu posso desaprender a amar e reaprender o amor de uma outra forma sim.

Tive minhas conquistas. Fiz um amigo sorrir. Fiz pessoas chorarem. Fiz um paciente sorrir. Deixei pessoas tristes e alegrei o dia de umas. Fui indiferente para outros. Ganhei um abraço num dia difícil. Caí. Levantei. Amei. Fui rejeitado. Pensei em desistir. Continuei. Me odiei. Me amei. Vivi nessa montanha-russa inconstante que chamamos de vida, o carrossel que não para de girar, a roda viva que pulsa e brada. E quem sou eu? Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe (ou pior acho que sabe). Daqui quatro anos a gente conversa.

I got so much soul inside my bones, take a look at me now. I’m young forever in the sun ever since you came I’m living ultralife

Ultralife – Oh Wonder

Sobre coletes, sacrifícios e fibroses

Eis me aqui do novo, depois de tanto tempo, depois de tanto viver em tão pouco tempo. E o que mudou?

Do avesso fiz o meu direito, do inesperado eliminei a expectativa, do futuro fiz página quase que totalmente em branco (com meras pautas flácidas a me guiar) apenas com bordas finas, afiadas. Do medo do erro fiz muletas, das cicatrizes fiz couraça, da dor e do dano, companheiros de longa data. Morri e renasci mil vezes, sempre de uma maneira diferente, cujo sacrifício é sempre visceral. Dar o peito a tiro não é opção, quando este já se fez alvo.

E o que resta quando já não me sinto mais eu mesmo? Me refiro ao eu de antes, cujo involucro era impenetrado, com fácies de criança e inocência. Hoje, porto minhas marcas, de tinta e pancadas, no rosto e na alma, carrego vasta farda fibrótica e enrijecida, marcada, imune a alguns baques e a alguns carinhos, incólume. De fato, isso talvez não seja bom, mas minha fortaleza é que me mantém de pé. Minhas pontes levadiças permanecem erguidas, sem acesso, os canhões a postos, fossos profundos.Perdi meu medo dos choques, das bombas, porém não da falha, porém não da pele suave que pode vir a me por abaixo.

Talvez eu viva em Saturno, como diz a música, e gire rápido, tornando difícil me acompanhar e sem previsão de fim para essas mudanças. Talvez isso seja normal, e eu ainda não achei minha órbita, talvez a nudez emocional ainda me é abusiva, expositiva e vulgar, quiçá meteórica. Difícil dizer, fácil é me perder nos anéis que eu mesmo crio, me sublimar com gases tóxicos, me aproximar demais do Sol, ser errante.

E então Saturno, o que será de mim?

 

Saturno, o que será de nós? Se estamos surdos para escutar a própria voz

Saturno – Marcelo Perdido

 

Sobre paralelas, abstinências e tempo

 

É, acho que tô ficando velho. Não só pelos anos que já começam a pesar nas costas, apesar da juventude, mas também pela falta de paciência com as coisas. Já não tenho mais paciência pra mim mesmo, quiçá para os jogos dos outros, para a ignorância, para imaturidade e até mesmo para o amor. Sim, o amor. Eu que já tanto escrevi sobre ele, já me machuquei com ele, já sorri com ele, declaro aqui nossas relações como um tanto incertas, meio ariscas.

Assim como Theodore, em Her, acho que já vivi tudo que eu poderia viver, emocionalmente falando, e apenas sinto parcelas menores das coisas, disruptas, diminutas, incolores. Assim como ele, também me fechei na minha bolha melancólica por um bom tempo, com tentativas de invasão sem sucesso. Mas acabo de ver que ela explodiu, não restam mais os seus reflexos (que não possuíam cores brilhantes), não resta mais o silêncio pungente. Mas agora, exposto, vejo que não há mais arrebentação, não há mais tempestade. Sobrevivi e caminho em meio aos destroços.

Como diz a música, chegou a hora e minha abstinência já passou. As feridas, hoje escaras, estão aqui, mas sigo, apesar da dor, apesar do sangue, apesar de tudo. Apesar inclusive de você, amor, que não me faz mais falta. Não falo do amor fraterno, pois esse ainda o possuo pelos meus anjos terrenos. Mas sim o amor romântico, o amor que pressupõe aquela necessidade de alguém. Me livrei dele ou ele se livrou de mim? Não sei ao certo, só sei que depois de tantas idas e vindas aprecio a sua ausência e não a lamento.

Se é permanente ou não, não sei dizer, nem ao menos se  quero que seja permanente ou não. Vou seguindo aqui, colecionando as marcas e lições, em caminhos paralelos com esse ser ambíguo. Mande notícias e se um dia for o caso, nos reencontramos, do contrário que siga seu caminho assim como eu seguirei o meu. A passos curtos, firmes e presos ao chão. Como sempre deveria ter sido.

 

Você está saindo da minha vida e parece que vai demorar. Se não souber voltar ao menos mande notícia.

Na Sua Estante – Pitty

Sobre poças, muralhas e passos

 

É amor, não foi dessa vez que você se alojou em mim e me levou para as suas nuvens. Não foi dessa vez que a bagagem da minha vida permitiu que meus pés fugissem ao chão, sempre tão onipresente. E não foi culpa sua, meu bem. Eu tive que ir, por mais que não pareça verdade, pelo bem de nós dois. Eu via além, via mais fundo do que você, porque era eu que habitava ali.

Não podia usurpar do seu amor. Como solução hipertônica, ao seu lado eu me equilibrava, diluía meus medos e preocupações com seu amor que exsudava, que me trazia um sorriso ao rosto. Você me fez muito feliz sim, mas não podia permitir que eu te fizesse menos feliz, ou ao menos, mais preocupado, mais atento, com medo de suas próprias pegadas. Não podia te dar meu amor em doses homeopáticas enquanto as suas superavam qualquer dose terapêutica. Não podia te deixar com o peso de amar por nós dois. Não podia te prender ao chão quando seu destino era entre as nuvens.

Ainda não estava pronto, infelizmente, para receber de braços abertos o amor que batia em minha porta de maneira tão doce e alegre. Minhas muralhas não discernem o preto e branco do seu colorido, não discernem um abraço terno de um soco impiedoso, elas apenas me fecham, me protegem de algo que me feriu por dentro uma vez. A princípio sou grato por elas, pois me fizeram mais forte, mais resiliente. No entanto, o peso delas me tirou o equilíbrio e ainda não posso brincar de pular as poças d’água da vida com você em meio às tempestades, ou me banhar nelas num dia de sol. Elas me puxam para baixo, pro fundo, e ainda não sou exímio equilibrista.

Não, não estou feliz de não mais traçarmos juntos nossos caminhos. Mas posso dizer que estou mais leve. Consciente de que, você, de coração muito mais aberto que o meu pode encontrar um novo amor virando a esquina, eu sei que ele virá. Eu volto a engatinhar, como quem desaprendeu a viver na arte do amar, e não podia permitir que você se atrasasse para acompanhar meus passos tortos e mancos, prestes a cair a qualquer instante como uma criança que desaprendeu seus passos, que sofre com a regressão, mas que ainda tenta.

Então amor, que volte num momento mais oportuno, que eu vou tentando me cuidar aqui, me curar e me preparando para te receber quando for a hora. E a você meu bem, desejo todo o amor do mundo, pois você, diferente de mim, é criatura apta ao amor e a brincar em todas as poças que a vida lhe oferecer, de preferência que elas tenham gosto de chocolate e a cor do seu sorriso de menino ( e que você nunca o perca). E eu fico aqui, me aprendendo e reaprendendo de novo, dessa vez mais leve, mais maduro e mais esperançoso de que os muros, já meio abalados, eventualmente cairão. E que estes quando caírem possam, por que não, se desmanchar em um sorriso bobo.

Agora eu quero ir, pra me reconhecer de volta. Pra me reaprender e me aprender de novo. Quero não desmanchar com teu sorriso bobo. Quero me refazer longe de você

Agora Eu Quero Ir – Anavitória

Sobre desabafos, anjos e pesos

 

Eu sempre fui tido como o responsável, o sensato, o racional, o equilibrado, o organizado. Rótulos e títulos que incubem de peso ombros despreparados desde muito antes. Não me foi dada a abertura para cair, a abertura para duvidar, para pular sem pensar, não duas, mas sim cem vezes. E mais uma vez, a exaustão bate à porta e com elas às dúvidas. De fato, nunca estive tão bem, tão seguro, tão forte, mas consequentemente o peso só aumenta, e não consigo, desparafusar essas maças onipresentes em minha mente calejada. Será que serei suficiente? Será que irei ajudar alguém na minha carreira? Será que serei uma boa pessoa, um bom profissional, um bom amor?

Sei que tenho meus anjos, que diariamente me aliviam, me ajudam a carregar, me fazem esquecer um pouco das horas a fio correndo com tantos quilos a mais, me envolvem no melhor abraço do mundo e me adormecem da realidade que pulsa lá fora, fora dos braços que me seguram feito uma criança com medo. Não posso pedir pra que ninguém entenda essas dúvidas sobre mim mesmo, que tenho cada dia quando acordo pela manhã ou mesmo essa necessidade pungente de ficar sozinho, com apenas o ressoar de ideias que não deveriam estar ali. Choro um pouco, durmo e me restabeleço de novo. Consigo escapar de olhos menos atentos, me tornei bom ator com o passar dos anos, escondendo as escoriações, mas olhos mais atentos, que nem olhar precisam, para saber que algo não está bem. E não me permito.

Não me permito cair diante dos seus olhos, não permito me desconstruir da imagem que por tantos anos me foi talvez imposta por mim mesmo, ou pelo ambiente ao meu redor. Queria voar, deixar tudo isso para trás, me preocupar é claro, mas sem podar minhas asas pela raiz, sem me derrubar quando tento alçar voo e o vento está a meu favor. Dói cair, dói saber que a imagem que fiz de mim mesmo, principalmente, pode ser apenas uma ilusão, e mesmo se for, dói saber que me preocupo demais e não acho o interruptor para desligar essa sinapse. Dói saber que não dói apenas em mim. Dói saber que posso te machucar quando tento apenas te proteger.

No final das contas, me recupero, o peso que se esparramara pelo chão quando caí é recolocado e vamos novamente ao caminho árduo. Espero de maneira apreensiva que quando cair de novo, não haja tanto pesar, tanta dor, tanta dúvida. Espero que não atinja meus anjos, que não assuste os braços que me envolvem, que não perca o meu santuário. Espero que a queda se torne mais leve, até não cair mais ou até quando cair, que ao olhar em volta, não haja pesos espalhados pelo chão aguardando seu lugar de volta sobre meus ombros. Apenas eu, a queda, e o chão, para me apoiar na hora de levantar de novo e continuar a andar.

So I just sit in my room, after hours with the moon. And think of who knows my name … Would you cry if I died? Would you remember my face?

Fine on the outside – Priscila Ahn